sábado, 28 de março de 2015

Direito de resposta... Avaliação classificatória é predatória

Participei de uma árida tarde de sexta-feira, esforçando-me para compreender como poderíamos ser mais massacrados do que já somos, ou melhor, como podemos colaborar com nosso próprio massacre, ajudando às avaliações externas a tornarem-se mais exigentes do que já são, numa suposta possibilidade de julgar, para além das Bancas e dos professores doutores que orientam seus "seguidores" o que seria uma "boa" dissertação e uma "boa" tese. A situação é tão dura que mesmo ouvindo argumentos sem referência ao contraditório, alguns dos crucificados pela baixa produção concordavam, faziam coro ao "punam-me com ardor" (deve ser efeito dos 50 tons de cinza, mas aplicados à área errada, eu acho), os argumentos circulavam entre: quando alguns chegam a 5, 6 e 7, precisamos colocar a cenoura mais para frente, para que o esforço tenha que se ampliar; os melhores orientandos de doutorado foram  orientados pelo professor desde a iniciação científica; ou ainda, o mestrado profissional é um mestrado de "aplicação", o mestrado acadêmico é de "produção de conhecimento novo" . Nesta lógica, morrem de ataque cardíaco, AVC ou doenças decorrentes da depressão, muitos que não a percebem.
A avaliação classificatória, insisto, é para ranquear, utilizar a competição para explorar, passar por cima e "antes" do outro, é predatória de quem ganha, porque vive no esgotamento (a cenoura cada vez mais para frente) e de quem perde, porque aceitou competir.
Outra face da mesma dor, é o caráter elitista das avaliações classificatórias, reforçado pela falsa ideia de que a classificação não tem suas cartas marcadas, a crença na "boa fé dos critérios". Ora, se eu digo que meus melhores orientandos são aqueles da iniciação científica, por consequência, nas seleções, deveríamos priorizar esta experiência e, priorizando esta experiência, as "chances", o "acesso à pesquisa" ficará sempre com os mesmos ("melhor" aqui significa os que tem mais facilidade, porque já são iniciados). Porém, em uma realidade em que poucos são os iniciados, trazer tantos outros para esta possibilidade que é a pesquisa (produção de conhecimento) tem muito valor, um deles expresso no significado político de democratização (e que as elites classificam - do alto de suas quíntuplas melhores condições de vida - como "desqualificação"), "melhor", aqui, pode ser entendido como aqueles que pela primeira vez estão iniciando o processo de uma pesquisa, uma outra possibilidade de conhecimento, com outras metodologias e rituais. A pesquisa é difícil, exige um tempo que a agência avaliadora não oportuniza e, portanto, faz-se o que é possível fazer, não o que gostaríamos, achamos necessário ou propusemos fazer, mas isto não pode ser visto como "não fazer pesquisa". A pesquisa no mestrado acadêmico de dois anos, é a pesquisa que é possível fazer, no mestrado acadêmico de dois anos, com estudantes iniciados e não iniciados em pesquisa (durante a graduação). "Melhor" aqui, precisa considerar o conjunto de profissionais que, pela primeira vez, iniciam o processo da pesquisa e são tensionados a realizarem uma dissertação em dois anos.
A avaliação classificatória não reconhece (sequer parcialmente) a discussão epistemológica sobre diferentes entendimentos do que é conhecimento (e conhecimento novo), sobre produzir conhecimento e sobre o caráter político da produção de conhecimento (seu compromisso social). Como não existe uma única forma de produzir conhecimento e de definição do que seja conhecimento, os grupos (de pesquisadores) que compartilham compreensões epistêmicas e práticas metodológicas são os responsáveis por trabalhar/compartilhar critérios de validade expressos em Congressos e Bancas, que reúnem seus elaboradores e iniciantes. Supor possível uma avaliação "supra-epistemológica" e "suprametodológica", que estivesse sobreposta aos doutores que constroem os campos seria um esforço inócuo (avaliar duas vezes com o mesmo critério) ou facista (desconhecer o que é diferente, obrigando todos a um único modelo).  
Exceto para aqueles que já têm dadas todas as condições, desde o berço, facilitadas e potencializadas pelas estruturas de centros de pesquisa produzidos pela pilhagem (recursos humanos, naturais ou financeiros roubados dos países em menor condição de "jogo científico"), a avaliação classificatória mais reforça a desigualdade e em nada nos orienta para uma prática científica mais humanizante.
A avaliação não precisa ser classificatória, e não pode ser classificatória, quando queremos que todos tenham um ótimo desempenho (o melhor desempenho possível, considerando-se as condições dadas), reconhecendo a história, o esforço e o desempenho de cada um e utilizando-a para colaborar com a melhora daquilo que se faz. Isto serve para pessoas, instituições e para Programas: melhorar o que se faz (por meio da avaliação), mas com princípios de democracia, solidariedade, justiça social.

3 comentários:

Nathalia Christine Santos Correa Da Silva disse...

É com muita satisfação que recebo essa análise oportuna e competente após a angustiante tarde de sexta-feira. Afinal, mesmo não tendo reunido as condições necessárias à iniciação científica durante a graduação, o que fatalmente deveria ter me conduzido a um mestrado profissional (pois ao que me pareceu, ainda há quem insista na necessidade de distinção entre o trabalho manual e o trabalho intelectual), prosseguirei com os objetivos da minha pesquisa, a fim de que ela possa contribuir para o aprofundamento de estudos que sirvam de ferramenta (aplicação do conhecimento sim, e por que não?) aos profissionais da educação para a crítica aos valores inerentes à avaliação classificatória, os quais incorporam e legitimam uma concepção hierárquica do conhecimento e dos alunos. Quem sabe não surja dessa “aplicação” a proposição de soluções possíveis diante dos artifícios que tentam negar aos que hoje frequentam a escola pública o direito a uma educação de qualidade, justa, emancipatória e solidária?

Andréa Rosana Fetzner disse...

Obrigada pelo comentário Nathalia! Vc tem toda razão! A pesquisa faz sentido para vivermos melhor e, no nosso caso, isto significa qualidade, justiça, emancipação e solidariedade.

Adrianne Ogêda disse...

E essa lógica que assola as instituições universitárias faz com que a produção esteja a seu serviço. Escrever, produzir não mais como um desdobramento de um mergulho na pesquisa mas como reflexo da imposição de uma determinada quantidade de produção num determinado tempo imposto. Tempo que com vc bem disse, não está conectado com os processos em jogo.